domingo, 20 de maio de 2018

942 - SOS




É um título que dispensa apresentações: uma reivindicação que, num país mais justo e menos desigual, jamais precisaria de assumir tal estatuto. Deveria, por isso mesmo, ser uma causa absolutamente agregadora e unificadora, mas, infelizmente, não é.
Não acredito que haja professores que não considerem esta reivindicação mais do que justa. Não acredito que haja professores que não queiram recuperar este tempo de serviço, assegurado com tantos sacrifícios (alguns pagos com a própria vida). Alguns podem não acreditar, de todo, na sua recuperação; alguns (como é o meu caso) podem estar na disposição de aceitar a conversão desse tempo numa bonificação da contagem do tempo para a reforma; alguns (como é o caso dos colegas da ILC) podem acreditar mais em iniciativas diferentes das tradicionais, mas… todos — estou plenamente convicto — queremos basicamente o mesmo: aquilo que é nosso, por direito. Portanto, não compreendo por que razão estamos tão desmobilizados, tão divididos e tão fundamentalistas na defesa dos estandartes que decidimos erguer.
É normal termos opiniões divergentes relativamente à municipalização, à flexibilidade, ao fim das retenções, ao regime de gestão… mas é absolutamente, tristemente, desoladoramente incompreensível que estejamos tão divididos, tão alheados e tão indiferentes numa causa como esta, que a todos interessa, que todos prejudica de forma tão contundente. Se uma causa tão justa não nos mobilizou a todos, se uma causa tão aglutinadora não levou a Lisboa o CORPO INTEIRO, então…
Às petições e às iniciativas legislativas, respondemos com a nossa assinatura. É assim que formalizamos a nossa concordância e o nosso envolvimento ativo. Ninguém nos pede, nem nos exige, militância propagandística. É do número de assinaturas que vivem essa vias da cidadania ativa. Às manifestações, respondemos não com assinaturas nem com palavras de apoio, mas com a nossa presença. É do número de manifestantes que vivem as manifestações. Não ir a uma manifestação é como não subscrever (preto no branco) um abaixo-assinado, é como não assinar uma petição ou uma iniciativa legislativa. Se todos assim procedêssemos, ficariam os nossos representantes sindicais a gritar palavras de ordem para os agentes policiais de serviço à debandada. Aos olhos de todos — os de dentro e os de fora — o corpo de uma manifestação representa a dimensão do descontentamento e do caráter de quem decidiu erguer-se para reclamar os seus direitos sonegados.
Coerente com o que disse nos parágrafos precedentes, reconheço à dita blogosfera docente — refiro-me à mais frequentada, àquela que mais influência granjeou no nosso universo profissional — o direito de não se ter empenhado mais ativamente na promoção da manifestação convocada para o dia de ontem, quedando-se por algumas notas de circunstância. No entanto, constato com pesar que proliferam agora as notícias sobre a escassa cobertura mediática do evento. Como podemos nós censurar a comunicação social por não dar à manifestação de professores a importância que nós próprios, os mais interessados, não soubemos dar, de forma arrasadora?
Reservo as últimas linhas para os devidos agradecimentos aos sindicatos, por se terem unido nesta causa, uma manifestação que foi um exemplo de civismo, de convivialidade e de organização. Aos muitos milhares de colegas que, com os sacrifícios que todos conhecem, percorreram o país para serem células do gigantesco corpo que se formou, do Marquês ao Rossio, para defenderem também os interesses dos que optaram pela indiferença ou pelo comodismo, o meu cingido abraço, O MEU COMOVIDO ORGULHO!   

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Hoje, sinto-me... urso!




E lá vou eu, amanhã, com mais uns quantos, até à Capital, para fazermos… figura de urso! Vamos… LU-TAR! Tão ridículo, não é verdade? Coisa tão… do passado, tão de gente retardada…! Enfim, amanhã lá vamos nós, no bonde, para mostrarmos ao mundo a percentagem de gente estúpida que a escola pública ainda comporta. E o mundo vai sossegar, porque acabará por constatar que não somos assim tantos como isso.
Ainda assim, a transumância ursina vai ao Marquês, e vai ao Marquês porque ainda acredita que essa alegoria humana pode fazer alguma diferença, pode mudar alguma coisa, pode… ser positiva para a classe. Enfim! E lá vamos nós, os crentes do ensino, os missionários da docência militante… lutar. Vamos lutar (eufemismo nosso, para que a nossa consciência possa aceitar tamanha estupidez sem protestos)… vamos lutar, dizia eu, por todos, todos sem exceção: pelos que já não acreditam e por isso não vão; pelos que já se conformaram com o que lhes cai no prato e nas costas e, por isso, não vão; pelos que ainda acreditam, mas não estão para desperdiçar um dia da sua boa vida com tamanha futilidade; por aqueles que, acreditando ou não, não querem desagradar ao dono; por aqueles que já não acreditam nos sindicatos; por aqueles (muito mais inteligentes do que o resto da plebe) que acham que os sindicatos apenas organizam estas ações para fazerem a sua feira, com interesses meramente políticos e partidários, fazendo dos professores carne para canhão; por aqueles que acham que a era dos sindicatos já acabou; por aqueles que já não se sentem professores; por aqueles que já se instalaram e temem perder o encosto; e por aqueles que… se estão simplesmente borrifando. Amanhã, os ursos da docência vão a Lisboa esbracejar por esta gente toda. Devemos dar graças à Natureza por ter produzido tão benévola proporção!
 E pronto, amanhã vai ser o Dia Universal do Urso! Vamos todos à Capital para… ver como estão as estradas de Portugal!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Não, a austeridade não acabou!



Os argumentos de Costa e Centeno dizem uma coisa, mas os factos dizem outra: a austeridade não só não acabou, como se agravou para os funcionários públicos, devido à manutenção dos salários nominais em 2018 e 2019. Os professores e todos os funcionários do Estado estão sujeitos a uma austeridade salarial clara e todos os portugueses sofrem uma impiedosa austeridade fiscal, via impostos indirectos.
Qualquer trabalhador do sector público pode fazer o seguinte cálculo: considere o valor da remuneração auferida em Dezembro de 2017; considere o valor da remuneração resultante do descongelamento das carreiras e do aumento faseado, tal como previsto, durante os anos de 2018 e 2019; ao valor do aumento registado no fim de 2019 subtraia o valor da inflacção no período em análise; verificará que o que melhorou não chega para anular a erosão do poder de compra do seu salário nominal. Recorde-se que a erosão aludida começou com o agravamento do IRS em 2013, prosseguiu com a sobretaxa e a revisão dos escalões e acentuou-se com a subida dos descontos da ADSE (de 1,5 para 3,5%) e da CGA (de 10 para 11%), subidas estas que não foram revertidas.
A política de António Costa foi por ele assumida na recente entrevista dada ao Diário de Notícias, quando disse que prefere criar mais empregos a subir os salários dos que já estão contratados. E que política é essa? Fazer crescer o número dos funcionários públicos à custa de salários e reformas cada vez mais baixos, em termos reais. É isto diferente do ajustamento da Troika? Sim. É mais anestesiado, mas pior para os trabalhadores. E não pode ser dissociado da circunstância de 75% dos empregos criados, de que Costa e Centeno tanto se orgulham, serem empregos a salário mínimo.
Esta política de empobrecimento por via de salários baixos começa a dar resultados no sistema de ensino: começamos a ter escolas onde os alunos ficam sem professores durante largos períodos de tempo, apesar de termos milhares de professores desempregados. Trata-se quase sempre de horários incompletos e temporários, que ninguém aceita por a remuneração não cobrir o custo das deslocações e alojamento. E o fenómeno já não se circunscreve a escolas de zonas isoladas. Outrossim, já se regista em Lisboa. Por outro lado, pairam para futuro as consequências dos ataques promovidos pelos últimos governos à profissionalidade docente: o afastamento da profissão por parte dos jovens candidatos ao ensino superior vai reconduzir-nos, se nada for feito (e nada está a ser feito) à falta de professores que vivemos há quatro décadas.
Se passarmos para a gestão mais específica do ecossistema das escolas, o ambiente é desolador. Vejamos dois exemplos colhidos na actualidade:
1. Os concursos de docentes deste ano parecem preordenados por mentes sinuosas, apostadas em prejudicar os professores e lançar o caos. Atropelou-se a lei de modo primário, como aqui fundamentei no último artigo. Mas não ficaram contentes os mandantes. Agora voltaram a mudar as regras, para prejudicar mais uns milhares de professores, que serão preteridos a favor de outros, que nunca deram uma só aula no ensino público. Embora o aviso de abertura do concurso publicado em Diário da República consigne a validade do tempo de serviço prestado no âmbito das Actividades de Enriquecimento Curricular, alguém redigiu um manual interpretativo e veio dar instruções às escolas para fazerem o contrário. Suceder-se-á uma chuva de recursos e de acções em tribunal. Continuarão as já insuportáveis visitas de cortesia dos sindicatos ao Ministério da Educação, sem resultados práticos. Mas mais uns milhares de vidas de professores ficarão imediatamente estilhaçadas.
2. Nas provas de aferição de expressões físico-motoras, os alunos foram chamados a fazer testes com aparelhos com que nunca lidaram, porque não existem nas escolas que frequentam. Repetiu-se este ano a farsa do ano transacto, com a transumância, por empréstimo ou compra apressada, dos aparelhos necessários, ou, o que é pior, com a sua substituição por outros diferentes, para consumar uma mistificação sem fiabilidade.
Frei Tiago Brandão, abade João Costa e a noviça Alexandra Leitão transformaram o Ministério da Educação numa confraria de folclore, incompetência e arbitrariedade.
in Público, 16/05/2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

No coração de Lisboa, a alma de Portugal


Imagem retirada daqui

No pretérito dia 11 de novembro — quatro dias antes de uma greve que qualifiquei como crucial, porque, mais do que a recuperação do tempo de serviço congelado, estava em causa o respeito que pretendemos resgatar — escrevi a todos os meus colegas uma carta. Infelizmente, tive razão no que disse: a adesão não foi arrasadora (longe disso), e, por isso, ninguém nos tratou com respeito. E sempre assim será, enquanto permitirmos que nos dividam, nos enfraqueçam e nos anulem. Sempre assim será (é já uma incontestável evidência).
Multiplicam-se e avolumam-se as críticas contra os sindicatos e as ações tendentes a desvalorizar e a enfraquecer a sua ação reivindicativa e mobilizadora. E, por incrível que pareça, não é apenas de fora que elas vêm, é também de dentro, do âmago do corpo docente, umas por geração espontânea e outras resultantes de esperanças e compromissos com interesses alheios ao coletivo. Contudo, sem os sindicatos — com todos os defeitos que possam ter — nós, atualmente e num futuro próximo, não valemos absolutamente nada enquanto grupo reivindicativo. Sem os sindicatos, somos autênticas ovelhas em altar de sacrifício. Acreditai, caros colegas, os sindicatos — com todos os defeitos que possam ter — são, para nós, os melhores sindicatos do mundo, simplesmente porque são a nossa única defesa válida, a nossa única firewall. Ninguém mais nos defende, ninguém mais está em condições reais de nos defender. É esta a nossa verdade, e é com ela que temos de sobreviver.
Se não nos unirmos em torno dos sindicatos, se não respondermos em uníssono ao seu clarim, se não dermos força à sua voz, como vamos unir-nos? O que vai ser de nós? Podemos ter fé numa epifania súbita dos políticos que temos? Podemos sequer esperar que eles venham a terreiro defender-nos, quando somos barbaramente agredidos dentro e fora da sala de aula, dentro e fora da escola? Podemos contar com uma epifania súbita dos diretores? Podemos sequer esperar que eles não sejam os primeiros a abafar a nossa voz indignada, explorada, ferida, humilhada, cansada… exaurida? Podemos esperar uma epifania de todos aqueles que, a dedo, foram colocados na eficiente cadeia de imposições, sujeições e subserviências que é o atual regime de gestão? Podemos sequer esperar que, nessa autêntica cadeia de produção de medo, alguma voz solidária se junte a uma voz solitária capaz de dizer “NÃO!”? Podemos creditar que, subitamente, ou em tempo útil, outra qualquer organização vai emergir, agregar, crescer, fortalecer e… fazer explodir esta situação? Podemos sequer esperar que, em tempo útil, uma tal organização possa, ao menos, nascer com condições para se afirmar? Podemos ter fé numa epifania daqueles que nunca ousaram agitar, levantar, mover, reunir… revoltar? Com quem podemos, então, contar?
Como disse, em tempo oportuno, a dita “Iniciativa legislativa de cidadãos para recuperar todo o tempo de serviço docente” — embora não fosse esse o seu propósito, pelo menos o de todos os seus subscritores — poderia (e ainda poderá) ter um efeito nocivo na mobilização para a manifestação do próximo dia 19. Involuntariamente — acredito — acabou mesmo por superlativar uma certa hostilidade latente contra os sindicatos. E, subitamente, fez recrudescer a ilusão de que poderíamos “contorná-los” (o que, implícita e perversamente, implica considerá-los como forças de inércia ou de bloqueio) e obrigar os políticos, os nossos políticos, a aprovarem algo que não querem mesmo aprovar. Não quem mesmo! Porquê? Porque sabem que estamos desunidos, divididos, encolhidos… Porque nos veem fracos, tendentes a amouchar. Porque neste Portugal sem escrúpulos, é o banco dos fracos que acaba sempre por quebrar.  
Todavia… a “Iniciativa Legislativa” não chegará a esse ponto. Diz-me o meu olhar que não atingirá, em tempo útil, as assinaturas necessárias para forçar a entrada no Parlamento. Se não foi capaz de empolgar os professores na sua eclosão, apesar de todas as dinâmicas geradas à sua volta, tal já não acontecerá, no atual contexto. Só um facto imprevisível e deveras impactante poderia alterar o que, infelizmente, se prevê. E creio que os seus proponentes — todos mais sagazes, mais informados e mais inteligentes do que eu — já terão consciência desse previsível desfecho. Espero estar rotundamente equivocado!
Por tudo isto, caros colegas, unamo-nos todos em torno daqueles que, há muito, nos representam e nos defendem. Levemos todos os nossos corações ao coração de Lisboa, no próximo sábado! Façamos de Lisboa, novamente, o nosso coração coletivo! Que a Capital não seja apenas o lugar onde nos vamos reunir para reclamar o que é nosso, por direito! Façamos da Capital a tábula da nossa união, o gineceu do nosso tão merecido respeito! Podeis crer, colegas: só em Lisboa nos erguemos, só em Lisboa nos voltaremos a erguer!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Antero de Alda




Não o conheci pessoalmente (o que muito lamento!), e também já não poderei conhecê-lo desse modo. Antero de Alda, o homem, faleceu há dias! Tomei conhecimento desta triste notícia ontem, através do blogue minha estimada amiga Anabela Magalhães. Não podia ficar no silêncio!
Conheci o artista há alguns anos, antes de editar os meus primeiros livros. Foi o seu talento para captar a alma da minha gente barrosã (juntamente com Gérard Fourel, outro olhar aquilino) que me atraiu para o seu nome. Escrevi alguns textos debruçado sobre as telas fotográficas de Antero de Alda. Foram forjados com a minha alma colada à dele, tentando reconstruir o que a sua máquina vira, o que o seu olhar vira, o que a sua alma pressentira… e o que eu, transmontano e barrosão como os seus “modelos”, podia, com as minhas vivências, acrescentar a todas estas visões e intuições. Fiz parcerias com ele, sem ele saber.
Em 2012 fui convidado — gentileza dos meus queridos amigos Anabela Magalhães e Gabriel Araújo — para ir à Escola EB 2/3 de Amarante. O Antero não estava, mas tinha-me deixado, com um naco do seu tempo, outro tanto do seu talento e honrosa consideração, um mimo, em forma de cartaz a assinalar a minha presença naquela instituição. Arrostei-o logo à entrada, e não esquecerei os rodopios que senti. Gostei muito da textura, gostei muito dos símbolos, das palavras que ele soube, criteriosamente, retirar da minha “literatura”… Enfim, senti-me bem-vindo e muito honrado com a atenção que o Antero dedicou a esse pequeno evento de um pequeno escritor como eu. Fez-me sentir maior do que sou!
Associo-me, assim, à dor dos seus familiares, amigos e todos os conviveram e trabalharam com ele diariamente (os colegas da EB 2/3 de Amarante, cujo acolhimento está gravado a ouro no meu coração).
Quanto a ti, Antero, talvez um dia troquemos “almografias” e “prosipoesias”… aí… num sítio qualquer, onde brote arte das fontes!

domingo, 13 de maio de 2018

Contem comigo!




Irei à Capital, pois claro! Quero dar um meu corpo à gigantesca alegoria. Não me sentiria bem em nenhum outro lugar nesse dia. Tenho de estar onde “os meus” estão a lutar!
Pensava publicar hoje um artigo exortativo (“Firewall”). Tenho-o escrito na mente, mas… o meu tempo anda demasiado somítico e fugidio. Talvez só tenha possibilidade de o verter para o teclado na próxima terça-feira. Valerá a pena esperarem!
Entrei em modo lupino.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Não à selvajaria!




Ontem… mais uma professora barbaramente agredida, por familiares de um aluno. Mais um episódio negro da interminável sequela selvagem que os professores estão a viver na primeira pessoa. É urgentíssimo pôr termo a esta miséria cultural! É urgentíssimo criar um ponto de rutura com esta inadmissível selvajaria! Porém, é também necessário identificar o vasto rol dos “mecenas” deste trogloditismo civilizacional. Só assim poderemos combater esta praga.
É óbvio que à cabeça deste longo séquito têm de estar aqueles que cometem tais atos. Faltam-me adjetivos, para qualificar a baixeza e a cobardia desta forma de estar em sociedade, e outras palavras, para elencar os valores que tal postura e tais atitudes transmitem às novas gerações e os danos causados, a curto, a médio e a longo prazo. Urge pegar esse touro pelos cornos! E não podem ser as vítimas, sozinhas, a fazê-lo. Temos de ser todos nós, os professores e a sociedade em geral, porque todos somos lesados.
Dito isto, passemos então à cinzenta hierarquia dos restantes contribuintes. Quem são e que responsabilidades partilham? Vejamos:
— aqueles que, há cerca de uma década iniciaram uma autêntica intifada contra os professores, colocando-os e abandonando-os no patíbulo social, com inúmeras insinuações de incompetência, de falta de profissionalismo, com perseguições constantes, com desautorizações sucessivas; enfim, aqueles que colocaram os professores numa posição de extrema culpabilização, de extrema desautorização e de extrema vulnerabilidade (são, a meu ver, responsáveis morais por todos estes “castigos” que vão fazendo parte da rotina escolar);
— aqueles que herdaram os lugares e as responsabilidades deste primeiro grupo: de forma mais ou menos acentuada, tem enriquecido esse tristíssimo legado, seja por ações concretas, que diminuem a autoridade dos professores, seja pelo criminoso silêncio quando estas inadmissíveis cenas estilhaçam estrondosamente o nosso quotidiano;
— aqueles que, sendo máximos responsáveis pelos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, apenas se preocupam com a escalada dos números do sucesso, sem se importarem com aqueles que, diariamente, vão pisando nessa inexorável e implacável caminhada; muitos, nestas situações, silenciam a voz coletiva, a voz da indignação, a voz da razão e da civilização, e deixam os ex-colegas, as vítimas, à mercê dos bárbaros; aqueles que não têm coragem de punir devidamente todos os que, diariamente, faltam ao respeito aos professores; aqueles que, agindo desta forma, semeiam agressões futuras (o medo, a desunião e a desproteção estimula os agressores);
— aqueles que, tendo outros cargos intermédios nas escolas, mais não fazem senão obedecer, impondo aos colegas (porque também alguém o fez com eles) o razoável e o não razoável, o legítimo e (não raras vezes) o ilegítimo, o que está e o que não está no quadro de incumbências e de competências de uns e de outros (faz-se porque sim, porque “Eles disseram que tinha de ser feito, e não custa nada”, mergulhando-se assim num autêntico mar de sujeições, de abusos, de sobrecargas… de corrosão da imagem e da autoridade dos professores);
— aqueles que, não ocupando cargos de coordenação (professores-soldados), pautam o seu dia a dia por um monocórdico “sim” a tudo o que vem de cima e dos lados, sem ânimo para delimitarem claramente o seu território, para exprimirem o que lhes vai na alma; aqueles que, com demasiada frequência, até ganham coragem para hostilizar os pares que vão dizendo “não”, que vão refrescando diariamente, a muito custo, a circunferência da sua inviolável individualidade profissional (também estes são espécies cada vez mais raras e mais vulneráveis nas nossas escolas);
— aqueles que — por falta de educação, de formação  ou simplesmente porque a indefinição e a entropia reinam — vão invadindo os espaços pedagógicos dos professores sem as devidas formalidades; aqueles que, no trato e no relato, voluntária ou involuntariamente, consciente ou inconscientemente, vão corroendo — aos olhos dos alunos — a delicada imagem e a “sagrada” autoridade dos professores;
— aqueles que, em casa, sem prurido algum, diante dos  filhos, falam dos professores como quem fala de uma horda de calaceiros, incompetentes e faltosos; aqueles que ensinam os filhos a não se ficarem diante de uma reprimenda de um professor; aqueles que, por óbvias e lamentáveis razões, “não sabem o que fazem”!
Urge, pois, criar um facto que abra uma fissura decisiva no tempo, separando este lodaçal humano daquilo que pretendemos realmente ser, da sociedade que pretendemos construir. Urge vincar bem um ponto de rutura e de viragem, das tormentas para a boa esperança.
Sem prejuízo de outras ações concomitantes — legislativas, de reforço de segurança, ações judiciais… — penso que os professores de Portugal deveriam parar um dia, deixar os muros e gradeamentos escolares, para se concentrarem nos lugares centrais de cada localidade, para aí gritarem ao país — ao país civilizado e ao outro — que basta de maus-tratos profissionais, que basta de selvajaria, que basta de trogloditismo. Deveriam ir aos rossios, nesse dia de luto, convidar a gente de bem, quem não se revê nesta primitiva forma de estar a demarcar-se destes energúmenos, para que eles sintam que têm de mudar, que têm de RESPEITAR MUITO, MAS MUITO MESMO, aqueles que põem os seus filhos nas verdes passadeiras do progresso e da civilização.
Urge pôr termo a esta miséria!

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Memórias de minha mãe


Ontem foi o Dia da Mãe. Então hoje é dia de fazer a redação (um simples apontamento).
Foi mais ou menos assim que o... senti.

domingo, 6 de maio de 2018

Apóstolos da mediocridade




Todos nós somos medíocres numa área qualquer do saber, ou do saber-fazer, e em muitas circunstâncias, ao logo da vida. Nada mais óbvio, nada mais natural. É humano. Porém não é esta mediocridade acidental que pretendo falar neste artigo, é da outra, daquela que é cultivada como forma estar na vida, daquela que é interiorizada e vivida quase como religião.
Os verdadeiros apóstolos da mediocridade são gente que, por múltiplas razões, abdicou de se empenhar e de se obrigar a sofrer para ser melhor. Os verdadeiros medíocres são gente que, numa determinada fase da sua vida, de forma mais ou menos (in)consciente, trocou a dor de evoluir, de melhorar, pelo cómodo prazer de rebaixar os demais, nivelando por baixo todo o seu habitat. Desta forma, e neste contexto teórico, a sua excecionalidade negativa não seria notória nem traumática. O ideal para os genuínos medíocres seria um mundo em regressão, em declínio, para poderem, num dado ponto do plano inclinado — sem qualquer dor, no seu estagnado marasmo humano — emergir como elite. É este o verdadeiro ideal, nunca assumido, dos medíocres.
Os verdadeiros apóstolos da mediocridade, paradoxalmente, vão-se tornando excelentes na arte de catar essências e gérmenes de insuficiências, incompetências… Na podridão em que os seus dias acabam por ser transformados, vão aprimorando o seu olhar aquilino, que pousa sobre os demais como um microscópio-lupa capaz de vislumbrar nanodefeitos e de os ampliar até à dimensão giga. As virtudes, vistas a olho nu, seguem caminho inverso até à invisibilidade, à dissolução absoluta, à “inexistência total”.  Os verdadeiros medíocres depressa convertem, no seu contrário, uma pessoa que fez cem ações meritórias e que cometeu apenas um erro, ainda que ínfimo. Desta forma, todo o meio em que se arrastam os medíocres se vai, aparentemente, aproximando do lamacento ideal dos seus sonhos. Mas, ainda assim, não é suficiente, porque há sempre alguém que escapa a esse minucioso e mórbido olhar. E uma exceção é quanto basta para pôr em evidência a genuína mediocridade. Uma exceção chega para esmagar o ego de toda uma irmandade medíocre. É por isso que os apóstolos da mediocridade, inevitavelmente, evoluem para verdadeiros profetas da mediocridade.
Como os nanodefeitos e os nanoerros não lhes garantem o mundo ideal — tem de ser absoluto — os profetas da mediocridade não só desejam, intimamente, o insucesso dos outros como também se especializam na garimpa das possibilidades, das hipóteses, das eventualidades negativas. Nesse cálido e quieto oceano, até as virtudes podem, à luz do seu olhar doente e doentio, baixo e rebaixador, ser transformadas em potenciais defeitos, imediatamente recicladas e legitimadas como defeitos reais. Depois, os profetas da mediocridade envergam as vestes de apóstolos da mediocridade e espalham os seus dogmas em todo o seu prodigioso pântano.
Desta forma — aumentando telescopicamente os defeitos, silenciando totalmente as qualidades, virando as virtudes do avesso e espalhando, como genuíno, esse produto contrafeito — os profetas-apóstolos-missionários da mediocridade, como bactérias de lepra, vão tornando o mundo mais contagioso, mais doente, mais decadente, mais pútrido, mais fétido, mais repelente, mais asqueroso… para poderem, enfim, viver numa ilusão de normalidade.
Os arautos da mediocridade são gente genuinamente má.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Dia de sol


Imagem retirada daqui.

Vou contar-vos um segredo que ainda não contei a ninguém. Todos sabem que foi roubado, do céu, o Sol, mas não se sabe quem. Pois… fui eu que o tirei.
Namorei-o muitas vezes, longamente, durante muitos dias. Cheguei até a pensar fazer uma escada gigantesca com todas as minhas poesias para lhe tocar. Mas… nem chegaram para me aproximar. O Sol é… coisa de muitas alturas. Lá no alto, ninguém o pode alcançar!
Pensei, repensei e voltei a pensar. Tinha de arranjar estatura para o caçar! Mas como?
Certa noite, não preguei olho de tanto matutar. E foi então que o vi, lá longe, sobre um peito de planura a acordar. Estava mesmo à mão de semear. Dali… quem quer o podia agarrar.
Ao outro dia, antes do romper da aurora, plantei-me no cimo da colina, à espera de o ver chegar. E ele não se fez esperar. Quase logo, o loiro redondinho abriu os olhos e bocejou. Deitei-lhe logo a mão e escondi-o no bolso da camisa, debaixo da camisola de lã, bem quietinho, para ninguém perceber! Nem chegou a ser manhã. E nunca mais amanheceu.
Toda gente, hoje, se queixa que é sempre noite no céu, mas ninguém sabe a verdade: que o único culpado sou eu. Devolvê-lo? Não posso! Porque não? Não sei bem porquê. Talvez ele me tenha sentido tão garboso e tão satisfeito com ele tão juntinho a mim, que se aninhou — sem eu dar conta — num cantinho escuro do meu peito. Agora tenho-o no coração, e… só brilha para mim! Cá dentro, é sempre sol radioso e azul perfeito!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Quando António Costa não distingue velocidade com toucinho




O 25 de Abril está a ficar como o Natal: celebra-se uma vez por ano, com doces afectos, e esquece-se todos os dias, com amargas realidades. Em matéria de Educação, a história dos 44 anos que passaram é a história de alterações sucessivas, num faz, desfaz, ditado por caprichos partidários de reduzida dimensão política e menor conhecimento técnico. Como observador atento e persistente do fenómeno, atribuo a António Costa e aos incompetentes a quem confiou a Educação a maior pobreza de ideias e políticas de sempre. Quando julgava que já não era possível ver pior, acabo ainda surpreendido.
1. Alexandra Leitão conseguiu trazer António Costa para a cruzada da soberba. Após perder no parlamento, soltou o ódio de que vive o seu sectarismo e veio acusar de não serem Centeno os que se lhe opõem. Por conhecer os factos em pormenor, custa-me não lhe responder como merecia. Mas depois de escrever sem o controlo do meu superego, apaguei, contei até dez e ficou isto, o mínimo que se pode dizer de quem não tem escrúpulos para manipular a opinião pública.
É deprimente a actual trapalhada dos concursos. O Governo começou por publicar no Diário da República um aviso de abertura de concurso extraordinário externo, que permitia que a ele concorressem professores do privado que nunca tivessem leccionado em escolas públicas. Fê-lo em flagrante incumprimento da Lei nº 35/2014 (Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas), que o obrigava a negociar com os sindicatos, e da Lei nº 114/2017 (Orçamento do Estado para 2018), que dispõe ser o concurso em análise exclusivamente para docentes “dos estabelecimentos públicos”. Para corrigir este erro grosseiro, o Governo alterou as regras, já com o concurso a correr, sem anular o aviso de abertura, e deu instruções particulares para proceder ao arrepio do que ele diz.
Mas esta enormidade afigurou-se coisa de somenos ao primeiro-ministro António Costa, que resolveu ampliá-la pedindo ao Tribunal Constitucional que trave o concurso interno para os professores do quadro, nos moldes decididos pelo parlamento. Recordemos a génese do problema: no ano transacto, mudando arbitrariamente e em segredo procedimentos de uma década, Alexandra Leitão enganou e prejudicou centenas de professores (estão pendentes 799 recursos hierárquicos e duas centenas de acções em tribunal) que concorreram de boa-fé; depois de um ano de meritória luta, o parlamento substituiu a razão da força totalitária da secretária de Estado pela força da razão democrática dos professores.
Mestre em hipocrisia política, António Costa arrisca agora o caos do sistema enquanto proclama, beatífico, que o Governo “tudo fará” para que o concurso “decorra com total normalidade”. Seráfico, confunde velocidade com toucinho, quando reduz o horário de trabalho dos professores do quadro às horas lectivas que lhes são inicialmente distribuídas. Cardeal silencioso sobre as práticas escandalosas e corruptas de alguns fiéis da sua congregação, ousa afirmar que professores, que trabalham em média 50 horas por semana, são pagos pelo que não fazem. 
A segunda justificação de António Costa, a dos gastos, para pedir a fiscalização sucessiva da constitucionalidade da lei, refere 44 milhões de poupanças em 2017. Julga o homem que faz aceitar a todos, acriticamente, afirmações que o rigor elementar facilmente desmonta? Peguemos nos dados e separemos factos de mentiras. A circunstância de não terem sido trazidos ao concurso de mobilidade interna horários lectivos incompletos nunca poderia gerar as poupanças que Alexandra Leitão invoca. Porque os horários escondidos a 25 de Agosto foram postos a concurso na primeira reserva de recrutamento e foram preenchidos, maioritariamente, por professores dos quadros de zona pedagógica, posicionados atrás dos preteridos nas listas de graduação, mas credores de vencimento idêntico. Só os remanescentes, que vieram a ser preenchidos por professores contratados, poderiam gerar uma ínfima parte do falacioso número a que o Governo alude. Poderiam, se até nisso os números não desmentissem o discurso oficial: nas reservas de recrutamento que decorreram até agora foram contratados quase mais 3000 professores que no ano escolar anterior. Termos em que nada pouparam e muito mais gastaram.
2. A iniciativa legislativa de um grupo de professores para que seja recuperado todo o tempo de serviço efectivamente prestado (nove anos, quatro meses e dois dias), promovida de modo independente relativamente aos sindicatos, tem mérito e merece análise. A figura escolhida, uma proposta de lei a ser subscrita por 20 mil cidadãos, contrasta com as petições e as resoluções, que se vulgarizaram e acabam, invariavelmente, na pasta das inutilidades. Com efeito, se forem reunidas as assinaturas, os deputados que viabilizaram a Resolução nº 1/2018, a favor da contagem de todo o tempo de serviço, são obrigados a apreciar e votar o texto da proposta. Ora que outra coisa poderão fazer, sem perder a face, senão votar no mesmo sentido uma lei que visa instituir aquilo que recomendaram ao Governo?
A maioria parlamentar que apoia o Governo PS propôs desde o início a reversão das medidas de austeridade do anterior Governo. E se para lá chegar as finanças públicas contam, a justiça mínima, que é disso que se trata, não pode contar menos. Acresce que a iniciativa oferece ao Governo uma saída airosa para a desonestidade política para que foi arrastado pela obstinação da desacreditada secretária de Estado, Alexandra Leitão.
A Fenprof não disfarçou o incómodo que a iniciativa lhe causou. Começou por a considerar redundante, por visar algo que já estaria legislado, referindo-se ao artigo 19º da Lei nº 114/2017 (Orçamento de Estado para 2018). Sucede que o tal artigo não diz nada de substantivo quanto à matéria em apreço, muito menos o que a Fenprof diz que diz. E que diz o artigo? Remete a questão para processo negocial, colocando logo a decantada condicionante da “sustentabilidade e compatibilização com os recursos disponíveis”. Por outro lado, como é sabido, esta lei extingue-se automaticamente no final do ano e a única coisa concreta que existe é um compromisso assumido pelo Governo a 18 de Novembro de 2017, que não foi vertido em diploma legal e foi rapidamente desonrado.
in Público, 02/05/2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

Aos cangalheiros dos cravos




A minha sincera homenagem aos pálidos missionários do desabril e do desmaio, a todos aqueles que trazem no silencioso ventre o crepúsculo da Liberdade. Sim, homenageio-vos, porque a vossa gestação vinga sobre aqueles, poucos, que ainda resistem. Já pouco valem as palavras livres! Já nada podem contra o vosso plúmbeo feto de escuridão! Parabéns, cangalheiros do azul! 
A minha sincera homenagem a todos os que se converteram em alegorias da conveniência cúmplice, da silenciosa aquiescência, da obediência cega, da receosa subserviência… da enfatuada escravidão! A minha sincera homenagem a todos os que transformam os punhos em dedos delatores! A minha sincera homenagem a todos ícones destes (des)valores! Com o vosso modo de estar e de ser, com a vossa cómoda resignação, com o vosso curvado exemplo, tornais-vos profetas e progenitores de uma era que dispensa a liberdade, a autonomia, a dignidade… o risco… a emancipação. Deixais de ser alados, mas ensinais muito bem a flexão que garante um papo cheio. Deixais de semear o livre pensamento, mas transmitis muito bem o valor de uma ração. Parabéns, cangalheiros do sonho e do coração!
A minha sincera homenagem a todos os que trocaram as vestes de mestres pelos grilhões de escravos! Parabéns, seguríssimos cangalheiros dos cravos! É vosso o deslumbrante reino dos véus!

domingo, 29 de abril de 2018

Salve-se quem puder!




Como já devem ter percebido, não me tem apetecido mesmo nada escrever sobre educação, ensino, escola pública, professores... Na verdade, tenho o olhar bêbado de confrangimento. Dizê-lo, seria… acrescentar ainda mais desolação a este quadro já de si tão triste.
 Dez anos entre a atalaia e as trincheiras, dez anos de olhos postos, a tempo inteiro, na caligrafia do eletrocardiograma docente… e jamais me doeram as retinas como agora. Tanta divisão, tanto medo, tanto isolamento, tanta fragilidade, tanta insegurança… tanta perdição! Acho que a classe tem a autoestima no fundo, naquele lugar escuro da nossa alma onde germinam a fé desesperada, as crenças aéreas… a fome extrema de um afago redentor… os anseios messiânicos... Nunca senti a classe tão carente! Não, nunca senti!
O oponente tornou-se muito mais subtil, mais sub-reptício, mais invisível, mais… leucémico. A gigantesca sala de reunião está agora povoada de vírus que os anticorpos não reconhecem como intrusos, como invasores, como cancerígenos. E o resultado é, infelizmente, o que se vê: padecemos de imunodeficiência adquirida. Somos um corpo que se autoanula, que se autofragmenta, que se autodestrói…
Diz-me o meu olhar alucinado que estamos no limiar de um novo tempo, o tempo em que ninguém pode confiar em ninguém, um tempo inquieto, de sobressalto permanente; o tempo dos egoísmos exacerbados, o tempo de uma cega, desenfreada e apaixonada antropofagia profissional. Perdoem-me a dureza das palavras, mas… é mesmo isto que os meus olhos veem!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mágoas mil




"Ó musa, minha cúmplice, ó minha irmã d’exílio”, vem blindar o meu sonho de Abril!
Quase todos depuseram a alma, musa minha, quase todos se renderam, quase todos se calaram, se vergaram, obedeceram… Quase todos, agora, querem o meu desterro; longe da sua farta marmita, do seu precioso chão, a minha contagiosa lepra, a minha perigosa palavra incontrita. Quase todos querem o enterro da minha aura maldita.
É a hora! Ó musa, minha confidente, ó minha solidão, vem, sem demora, beijar-me Abril no coração! Vem salvar-me deste bafo doente.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Ermo: filhos de Abril nos Globos de Ouro


Capa do álbum "Vem por aqui".

O ano de 2107 foi especialmente feliz para os Ermo. Da aposta da Valentim de Carvalho à consagração da qualidade da sua música pela Blitz, que considerou “Lo-fi Moda” como o melhor álbum do ano, foi uma vertigem. Agora, chegou a boa-nova da nomeação para os Globos de Ouro, na categoria de melhor grupo musical. Está muito orgulhoso este lobo (pai), como é natural!
Os Ermo são dois jovens bracarenses — António Costa e Bernardo Barbosa — que têm trepado a pulso a íngreme montanha da carreira musical, facto que, só por si, seria já merecedor da minha maior admiração. Todavia, há outros pilares a sustentar esse meu sentimento: gosto do seu insaciável cunho inovador, da sua irreverente criatividade, do poder das suas palavras, ora serenas ora perturbadoras, criteriosamente eleitas e bem enraizadas nas causas atuais; mas também os admiro (muito) por não terem cedido ao caminho mais fácil, aquele que conduz ao reino do mais vendável, do máximo lucro; admiro-os por terem escolhido os espinhosos trilhos da diferença, da rutura, da genuinidade, do risco… Enfim, da verdadeira arte.
Para mim, os Ermo já ganharam. Parece que foi ontem o dia em que o meu filho, do nada, apareceu em casa com o primeiro tema — “Montalegre” — saído de uma garagem onde, pensava eu, ele e o seu amigo estariam apenas a ocupar o tempo veranil de forma sossegada, segura e enriquecedora. E… subitamente… já fazem parte desta prestigiada consagração. É, sem dúvida, prémio glorioso para quem “nasceu do chão”.

sábado, 21 de abril de 2018

O meu doentio jogo de espelhos




Uma década de resistência, a tempo (quase) inteiro, deixa sempre muitas marcas. É inevitável. No meu caso, desenvolveu-se-me uma paranoia tão grande e tão completa, que já é ela que vê por mim. Portanto, caros leitores, não confundam com a realidade o que vão ler nos parágrafos seguintes. São alucinações minhas.
Com tamanha paranoia, ninguém estranhará (nem eu próprio) que a blogosfera docente se me afigure, presentemente, como um autêntico jogo de espelhos. É, para mim, extremamente difícil discernir com alguma lucidez, ainda que mínima. Até me parece que nada é o que parece (passo o pleonasmo). Depois… vejo coisas que mais ninguém vê. Está na cara que o vesgo sou eu. Paciência!  
Sinceramente (sinceridade doentia, pois claro), já não sei distinguir quem põe, realmente, a causa da Escola Pública e da classe docente acima das suas ambições, dos seus interesses pessoais, da sua notoriedadezinha, do seu protagonismo, da sua razão… Vejo pouca gente capaz de saber arriscar e de perder, em prol de um bem maior do que o seu. Parece-me (PARECE-ME) que, em muitos cérebros, pesa muito mais o ganho de provar que tiveram e têm razão do que o verdadeiro benefício coletivo. Talvez porque, na verdade, seja mesmo esse o primeiríssimo estandarte da sua luta (ainda que inconsciente). Na hora H, esses cérebros ficam na tribuna a exibir os interstícios da sua orgulhosa razão e a apontar incoerências, insuficiências e incompetências (frequentemente, às únicas organizações que nos podem defender, mal ou bem). Desnudá-las na praça pública (com o custo do enfraquecimento ou anulação do nosso protesto) é um imperativo que a razão, egocentricamente, lhes impõe.
Caso algo diferente (para muito pior) é o de quem, realmente (na minha paranoia, claro), anda a fazer jogo duplo. Na verdade, trata-se gente que serve um Senhor, mas que quer parecer servir todos os senhores e todas as senhoras, todos os meninos e meninas da grandiosa roda do ensino. Quando apertados, esses cavaleiros das concórdias transformam-se em paladinos da luta da classe, e até mandam uns "bitaites" contra quem realmente servem (areia). E a prole, crente e confiante, vai toda atrás. Depois, aos pouquinhos, com habilidade, deixam serenar as coisas e conduzem o rebanho para onde querem (na minha disfunção visual, claro!).
Quando, no fim de uma conversa “esquisita”, fico sem saber o que o meu interlocutor realmente pretendia transmitir-me — ou porque foi muito sinuoso ou demasiado hermético para a minha pequena ervilha cerebral — eu faço, por norma, a decantação do colóquio. Uma vez que não descodifiquei a teia de mensagens, procuro um significado naquilo que essa pessoa me fez sentir: inveja, incapacidade, culpa, vergonha, inferioridade… De seguida, com mais ou menos tempo de ignição, é costume as palavras ficarem mais iluminadas.
É este método que recomendo aos meus leitores. Neste autêntico labirinto de espelhos, onde é extremamente difícil (mesmo para quem tem olho clínico) distinguir quem é quem, usem o método deste paranoico incurável: desviem o olhar das teias discursivas (autênticas sucatas de palavras) e foquem as retinas nos resultados; avaliem os arautos e os paladinos, não pelo que dizem, mas pelo que fazem realmente, quando chega a hora H. Onde estão? Apelam ao levantamento, fecham-se no silêncio, quando toca a reunir, ou falam do sexo dos anjos? As suas palavras e as suas iniciativas (ainda que deslumbrantes) unem ou desunem? Dão força, ou enfraquecem a nossa luta? Apelam realmente ao levantamento, à indignação, à firme ação reivindicativa, ou geram em nós uma lenta, mas progressiva, noção de inevitabilidade, de irreversibilidade, de acomodação, de resignação… de verdadeira rendição?
E “prontes”, já estou novamente a ver elfos, duendes, sereias, minotauros, unicórnios… Olha ali um moinho que é um castelo de fadas...!

Já tenho o cavalo aparelhado




Vem aí, uma vez mais, “o meu concurso”. O meu fado é… o nomadismo autoimposto. Acho que, doravante, estou condenado a só ficar onde e até quando for obrigado a tal. Talvez já não haja um genuíno lugar para mim no ensino (neste ensino, no seu sentido mais genérico).
Podia estar perfeitamente acomodado, amordaçar a minha voz e… “ser feliz”. Mas teria de voltar a nascer, com outros genes (não sendo eu). Espero, pois, pelo determinismo das vagas para lançar as minhas cartas.
Já “chorei”, muitas vezes, os alunos que deixei na última escola onde estive. Talvez, no futuro, reviva essa experiência, mas… creio não ter outro remédio. É esta uma das muitas partes do preço das palavras aladas. Este é um dos rostos da minha sina: expor-me por todos e sofrer as consequências sozinho!

PS – Mais logo, ao morrer do dia, o prometido artigo (que ontem não pude mesmo escrever).

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O que mais me dói





O que mais me dói, neste momento? Os olhos. Ver um córrego a encorpar-se de corrosiva divisão, que ganha ímpeto nas descendentes encostas da montanha e... perceber que de nada adiantará uivar, porque a surdez e a cegueira tomaram conta do povoado, que vai ser arrastado pela torrente.
Amanhã desenvolvo, sem poesia, nua e friamente.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Do antissenexismo


A caravana do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente vai cheia. É um corso muito heterogéneo, que integra muita gente isenta, bem-intencionada, mas também conta com muitos mal-intencionados, gente com segundos e terceiros propósitos, que procura surfar essa onda para atingir outros fins: atiçar o “antissenexismo” (fabriquei a palavra) contra a classe docente.
É um facto que a classe docente está a envelhecer, como… estão a envelhecer outras classes e grupos profissionais, como está a envelhecer a população portuguesa em geral. Para além da fraca natalidade (que não se reflete apenas nos alunos) ainda há que contar com finanças fracas e com o aumento progressivo da idade da reforma, algo que é transversal a todas as profissões. Porquê, então, tanta ênfase no discurso sobre envelhecimento dos professores e tanta perpetuação do tema, que, ciclicamente, volta à ribalta?
Muitos professores fazem eco deste filão mediático, acreditando estar chamar a atenção para a necessidade urgente de renovação do corpo docente. Embora estejam conscientes de que tudo isso, a curto prazo, é uma miragem, fazem-no como quem lança uma garrafa ao mar. Compreendo. É o grupo bem-intencionado deste imenso cortejo. Porém, mais não fazem do que dar corpo e força à minoria insidiosa, que pretende, por esta via (alvejando os “mais velhos”), atingir os professores em geral. Por que estandarte pugnam, então, estes franco-atiradores?  
Nesta animada caravana do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente, à boleia de muitos ingénuos, fazem festa aqueles que, aleivosamente, pretendem continuar a lançar anátemas sobre os professores, aqueles que pretendem reduzir a Escola Pública a uma espécie de serviços mínimos de educação e instrução, a custo mínimo e com máximo sucesso administrativo. À boleia desse discurso, fomenta-se o “antissenexismo” contra os professores. É uma cinzenta teia de desfavores: o envelhecimento da classe surge associado às baixas médicas, à resistência à mudança, a métodos de ensino ultrapassados, a uma escola retrógrada, à desmotivação dos alunos, ao insucesso… Enfim, subjacente a todo este pérfido discurso, está a culpabilização implícita dos professores mais velhos por muitos dos males de que — dizem — a Escola Pública sofre. É uma infâmia, é um crime contra todo um grupo profissional. Trata-se de uma infâmia, porque é uma gigantesca mentira, um inominável logro.
Sei que os apóstolos do século XXI sonham com um oásis povoado de professores novinhos, muito precários, muito amarrados e condicionados, muito dependentes, muito obedientes… para manipularem, a seu bel-prazer, em absoluto, a forma e o conteúdo da educação e do ensino; sei que sonham com um corpo de aplicadores de conteúdos, executores reduzidos ao grau zero da docência. É caso para dizer, com alguma ironia: ainda bem que que as finanças vão mal!
É este o corrosivo corso do discurso sobre os malefícios do envelhecimento da classe docente. Só quem é muito ingénuo e quem não percebe absolutamente nada de educação é que se junta a esta procissão de vozes promovida pelos mais acérrimos inimigos da Escola Pública.


PS - Alterei para "antissenexismo" o neologismo criado, por entender que esta é a forma mais adequada ao conceito que pretendo transmitir.